Sexta-feira, Abril 30, 2010

Natureza biográfica

“Eu bato o portão sem fazer alarde,
só levo a certeira de identidade
uma saideira, muita saudade
e a leve impressão de que já vou tarde”
(Trocando em miúdos - C. Buarque)

“Quem inventou você fui eu,
porém, eu tenho que desinventar...”
(Reinvento - Gram)



Certo dia, de certa maneira, a gente nunca se lembra quando e como exatamente, começou a acontecer, o big-bang, o criacionismo, o sol e a lua, o homem quase máquina e sem emoção, a roda a rodar e a rodar a roda, as certezas e dúvidas, as grandes obras inscritas nas pequenas questões, as pequenas questões travestidas de grandes obras, o dedo médio em riste, a arma de fogo, a dor e a morte, o odor e a sorte, o sangue coagulado como esquinas, o bilhete de ônibus, também a menina, o amor desmedido e estúpido, sem deixar de lado os bueiros, medonhos bueiros, além dos pombos, imprevisíveis vôos e fezes de pombos; começou a acontecer também a literatura, essa cova funda que se cava em vida, cada um a sua, cada um na sua, tudo um dia qualquer começa, de um modo incerto e duvidoso, fácil de esquecer; de todos os lados reverberam o início, a gênese, o nascimento, ininterruptos e constantes, mas na mesma constância da despedida, do crepúsculo, do fim, que tudo é a um só tempo nada, de matéria ninguém vive somente, pois que é precária à existência, manca se andar sozinha, talvez nem ande, talvez se dobre diante da incapacidade, da incompletude, da carência que se evidencia nela, a matéria tão importante ao todo, mas impotente sozinha; há que se preencher um vazio, um espaço, há um interior imenso e não sabemos bem como decorá-lo, papéis de parede com as nossas lembranças, colecionamos amores, arrotos e arestas, peidos, bares e restaurantes visitados, programas de teatro, cinzeiros de motel, molduras com as nossas efêmeras glórias, quilômetros de linhas escritas trilhando reinos distantes, no interior de cada um, sempre há a linha do horizonte e a promessa de uma vastidão que só cabe ao mundo dos sonhos, que aos olhos não é dado ver, é para além que vivemos no nosso interior, paradoxalmente, quanto mais se afunda, mais se salva; mas se não é capaz de se compreender, como vai conseguir compreender o outro?, se não tem amor próprio, como vai ser capaz de amar o outro?, como vai encontrar amor no outro, que é um pouco de si mesmo, a quem ainda não consegue amar?, esse tipo de questionamento não é sensato fazer, não mesmo, porque há quem queira se preservar assim, lidando com alguma coisa que não sabe bem o quê, uma espécie de peso, algo como uma carga sobre os ombros, inexplicavelmente um nada, ela me disse... ela me disse que o peso que carrega sobre as costas é um nada, e eu fico então me perguntando e tentando em vão, talvez apenas pra me machucar, imaginar uma pessoa arcada com o peso de um nada sobre as costas... a gente já ouviu falar em tiro acidental, alguém que puxa o gatilho sem querer, e a bala viaja, sem que se tenha tido a intenção, do revólver até um ponto vital de outra pessoa, ou de si mesma, que suga toda a sua vitalidade; cada passagem do tempo é um tiro no escuro, mas não deixa de ser um tiro, a gente sente que nada começou conosco e que nada terminará conosco também, a gente se sente meio que só de passagem, a gente se sente uma interferência no sinal, um intruso na corrente, na roda-gigante da vida, os astros e planetas dando voltas uns por cima dos outros, translação e rotação, a gente na roda-gigante, uma putaria danada, desavisados, ao mesmo tempo fascinados e amedrontados com a vista lá de cima, aliás, de todos os ângulos que a roda nos permite, até que acaba o nosso tempo, mas apenas o nosso, que o tempo maior continua, e a gente sente que a roda-gigante não precisa da gente pra rodar; às vezes ela dá voltas pelo passado, contornando e contemplando, seriamente, as ruínas dos monumentos que ousou erguer, como se estivesse procurando um pedaço da história que ela não pegou, tem nisso a sua grandeza e a sua perdição, não quer esquecer um mínimo detalhe e por isso procura sempre e a todo instante sem saber o quê... porque não o faz com minúcia, ela tem o péssimo hábito de se afobar, de se atrapalhar com detalhes inúteis, e quando encontra algum episódio que a interesse, perde-se inteiramente nele, cria as conexões mais impensadas, se enche de questões inimaginavelmente articuladas, sofre, sucumbe, assiste como espectadora passiva ao episódio, sem saber como proceder, sem jamais se dar por satisfeita e por isso, condenada, pela sua breve eternidade, a viver ali, mais do que talvez devesse; fascinante, a atriz desfilava seu corpo no tablado, parecia flutuar, tão leve eram os seus passos, tão encantada ficava a platéia com sua baba bovina... trazia na voz, a atriz ou já a personagem, um sotaque manhoso, e nas suas palavras trazia a mente de um ser inquieto, como um cavalo selvagem, que vivesse sempre na fronteira das coisas, na órbita do tempo, sem jamais se envolver tanto e por isso se envolvendo demais, sempre meneando a cabeça diante do obstáculo, exalando desconfiança pelos poros, fazendo uma careta pra tudo, como se dissesse eu já sei o que você quer aprontar comigo, não adianta nem tentar... mas não se trata da atriz, esse corpo que se empresta a uma outra persona, o teatro como um terreiro, macumba à meia-entrada, a arte santa, das entidades incorporadas, de demônios e querubins, pois não se trata da matéria, que, já disse, ela é manca; além disso, também sou fraco, também sinto peso de nada e de coisa alguma sobre minha costas, e pelo jeito vou ficar aqui com isso, porque você me devolveu, me deu um tapinha nas costas e disse: vai viver sua vida!, já nem mesmo comecei a viagem e sou obrigado a interrompê-la, quando começava a me acostumar com os novos fatos, com os novos pontos, com as novas formas, você me informa o fim, e me anuncia sem solenidade alguma, como a um funcionário temporário, cujo contrato expirou e sua demissão não demanda nenhuma solenidade mesmo, e você só diz que tentava há tempos, que lutava, e que apesar de tudo me amava, mas que se deu por vencida e que como saída para a situação era necessária portanto a minha saída, a sua, sei lá, que viver assim sufocada, vai saber por quem ou por que, não dá... que ainda me quer, mas que não consegue mais se dar; e se de repente numa noite uma chuva forte começasse a cair, simples seria fechar as janelas, por panos secos nos vãos das portas, proteger a casa e proteger a gente, talvez a gente pudesse ligar a vitrola e tocar alguma música para alegrar, junto com o vinho seco que cairia bem à ocasião, instantes de rodar agarradinhos canções inscritas em faixas de vinil que também rodassem sob a pick-up, dançar uma, duas, três, tanto faz, talvez até menos, só duas, ou metade de uma faixa e tão logo a gente estaria num leito armado de improviso, alguns colchonetes e cobertores como cama, nossos corpos corpos nossos, e línguas e coxas e barrigas e palavras e gemidos todos nossos, língua principalmente, língua e ânus, doce, língua e boceta, acre, língua sob toda a superfície branca da sua pele, branca, língua na sua língua, nossos corpos, nossas diferenças, minha protuberância, sua intumescência, que encontro não seria?, movimentos executados sem ensaio, e por isso perfeitos, como se em outro lugar a gente estivesse, não sei de que forma, a gente lá, sem pensar na tempestade que desabaria sobre nossas cabeças se não fosse a proteção de um lar, e num determinado instante, não contendo mais a vida querendo jorrar de si, você gritaria mais que os trovões da tempestade, num orgasmo nunca visto e sentido, dando ao seu rosto uma expressão de êxtase, rosnando feito uma fera, me fazendo sentir calafrios, a sensação de um líquido correr toda a extensão da espinha, como se o infinito coubesse em alguns segundos... mas pára, não é bem isso; sobre o amor, há muito que ser dito, mas também há muito que permanecer calado, que quando se trata deste assunto, como dizem muitos entendidos por aí, fere-se com a flor, há lugar no objeto amado para a felicidade e a infelicidade, para companheirismo e o egoísmo, para o cuidado e o desinteresse, e assim vai, e então se vê diante de quão embaraçoso tema pode se encontrar alguém, eis que de fato, aquilo que de início lhe aparece como uma luz em meio à escuridão, um belo dia, sem mais nem menos, se apaga, e então a pessoa, que antes sabia muito bem, acostumados que estavam os olhos, andar nas trevas, agora, sem a luz que se projetava e a projetava igualmente, não sabe mais nada da escuridão para a qual se viu obrigada a voltar... já agora, essa pessoa vê fantasmas, vultos que cortam deselegantemente outros enredos, outras narrativas, pedaços de imagem, a saia de um domingo, colada com um sorriso de terça, mais o cabelo de uma sexta, o cheiro de sempre, uma fantasmagórica aparição, flashes inevitáveis inundando os mais ínfimos instantes, no trabalho, num banho, numa idiotice na TV, num romance russo, em tudo, fantasmas e mais fantasmas, não espíritos, fantasmas... fantasmas, o fim e nada mais... como exercício de linguagem até que valeu a pena, vai dizer um dia o escritor numa entrevista coletiva concedida por ocasião de seu novo livro em que será interrogado sobre a natureza biográfica de sua obra, depois de sorrir ele vai pedir licença e, debaixo da chuva de protestos por parte dos jornalistas críticos e enviados especiais, se retirar por um corredor extenso, meio sem ter mais noção de si, aparentando uma crise de identidade, uma dificuldade de se situar no mundo e em si mesmo, por esse imenso corredor, já tendo a porta atrás dele se fechado e os rumores cessado, vai ganhar a rua pelos fundos da livraria, suado e ofegante, o som da cidade grande vai encher os seus ouvidos, a odor típico do lugar vai entrar violentamente pelas sua narinas e ele vai olhar perplexo o mundo lá fora, parecendo esquecido de si, apenas em condições de notar, pelo peso que lhe veio como estímulo nervoso inesperado e repentino, em sua mão direita , um revólver carregado, ele sem ter idéia de como aquela arma foi parar ali, o seu dedo indicador já dobrado e pronto, no gatilho, ele vai olhar as pessoas passando e notar que não é notado, mesmo com aquela arma na mão, ninguém o nota, é um anônimo que não interessa a ninguém, ele percebe também que ninguém vai se importar se ele levantar a arma, até a boca, engolir o cano o máximo que puder, acionar o gatilho e morrer, a vida dele, ele vai perceber, não diz respeito a dos outros, e isso vai ser até mesmo um bom motivo para ele seguir o script: levantar a arma, até a boca, engolir o cano o máximo que puder, acionar o gatilho e morrer... mas não, ele vai decidir que não é a hora ainda, está recobrando algo de sua consciência, e que mesmo que ela não me escreva, que não me mande uma carta contando como é viver essa nova vida, e mesmo que ela não diga notícias suas pelo telefone ao meu ouvido, mesmo que não me dê o direito de compartilhar da sua vida, mesmo diante de muito mais coisa, que prefiro não ter que comentar, eu, quer dizer, o escritor, vejam!, o escritor vai seguir o fluxo e viver sozinho... e talvez um dia eu responda àquela pergunta indevida do jornalista: se a obra era ou não de natureza biográfica.

1 comentários:

mesticigenados disse...

A pergunta do jornalista foi "indevida", mas crucial para a reflexão. A busca pela resposta sobre a natureza biográfica foi, é, e será o caminho, onde o "escritor", solitário, irá encontrar as pedras e os deleites que constroem a si próprio. E, como um amigo fala ao viajante; Boa sorte, aproveite cada segundo de tudo que virá...